quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

O amor que te destrói.



-Mais alguma coisa senhorita? Meus olhos permaneciam a cima da cabeça do velho, em uma pequena caixa amarelada - Senhorita?
-Uma caixa de Camel’s, por favor. Sorri enquanto via a mão enrugada pegar a caixa amarelada, copiar o código e os números 4,70 serem adicionados naquela tela do computador.
 Mas não era só isso que eu via, eu via meia noite depois de um longo sexo, eu via a fumaça voar por aquele quarto azul com mobílias horríveis e nada combinando, eu ouvia risadas e ouvia a voz daquele ser falando ‘Se continuar fumando desse jeito vai virar um trem. ’ E eu sempre respondia que só fazia aquilo depois de um bom sexo, e era sempre assim, essa era a frase que desencaminhava mais uma sessão puro prazer.
  Lembrei-me do dia que eu fiquei brava. Realmente brava quando soube que aqueles lábios puros haviam sido tocados pela droga que carrego em meu bolso traseiro.
 “Você vive com os cigarros na boca, eu apenas experimentei. Não entendo sua hipocrisia” lembro-me de ter ficado ainda mais nervosa e desistido da conversa, lembro-me de sair andando e o deixado lá.  Nunca contei o motivo.
 Paguei ao velhote e acendi o meu cigarro, estava chovendo como se do céu um oceano caísse, também fazia muito frio, mas Deus como eu adorava aquilo.
 Fiquei debaixo do toldo azul vendo a chuva cair em torrentes, e as pessoas passarem apressadas de baixo de seus guarda-chuvas, a fumaça embaçava minha visão o que deixava tudo mais surreal, que é como tem sido o mundo para mim desde que eu fugi.
 Meu deus eu fugi do mundo, da vida que eu tinha quando ele resolveu ir embora. Não esperei ele se explicar, não esperei que ele voltasse, arrumei minhas malas e sumi.
 Não dei adeus aos meus amigos, não dei adeus aos meus familiares. Meu deus como eu sinto saudade da minha família, será que meus amigos irão me perdoar se eu ligar para eles? Será que minha família acha que eu morri?
 De certa forma eu morri.
 De certa forma eu já estava morta.
 O cigarro acabou, o coloquei no saco das compras, eu nunca jogava na rua.
 Acendi outro. Meu deus porque eu ainda não morri?
  Comecei a rir ao lembrar que eu falava que nunca iria colocar um cigarro na boca, como era engraçado como as coisas mudavam tão drasticamente.
-Senhorita? Ouvi uma voz me chamar, um garoto vestido com um longo casaco vermelho, devia ter por volta dos quatorze anos. –Poderia me dar um? Ele apontou para o meu cigarro. Eu ri.
-Não. Olhei para ele com desdém, iria ser bonito quando virasse homem.
-Olha, eu não sou inexperiente, os meus acabaram ok?
-Ok. Falei secamente.
-Vai me dar um ou não?
-Não, isso pode te matar.
-Então porque você fuma? Aliás, já o segundo desde que te observo.
-Vou te contar um segredo menino. Dei uma longa tragada sentindo-o em mim e soltando levemente- Eu fumo porque eu não tenho nada a perder, pois já tentei de todas as formas, e essa é a forma que eu consegui me adaptar. É algo que acalma a alma ao mesmo tempo que me mata. Aos poucos, lentamente. Você ainda tem muito para ver, tem muito a aprender, tem muito a amar.
-Você fala como se fosse velha.
-Sou mais do que você.
-Mas você ainda tem muito para ver, muito a aprender e muito pra amar.
-Sei disso, menino, sei disso. Mas o mundo não será o mesmo daquele em que eu acreditei que viveria, com sorte, isso aqui me matará antes que eu possa amar novamente. Com sorte.
  O menino ficou me olhando, meu coração era negro, sabia disso. Terminei o ultimo cigarro e guardei as compras na bolsa, estava chovendo cada vez mais.
-Não se destrua. Não deixe que ninguém te destrua menino. O amor já faz isso por ti. Ele já te mata, aos poucos.
 Pisquei para ele e caminhei.
Eu estava repleta de amor, todo o meu ser amava, cada célula, cada parte de mim era amor, mas com sorte. Ah!  Com sorte eu morreria antes de poder me aventurar a amar outro alguém.