quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Aquela garoa.

Meu corpo está leve, o vento em meus cabelos levando-os para trás e para frente como asas.
 Sinto que estou voando enquanto o balanço me leva para cima e para baixo, sinto algumas gotas e levanto a cabeça, as nuvens se juntam em um abraço, talvez estejam se despedindo, talvez se encontrando.
 Mas elas choram.
 Suas lágrimas caem em meu corpo, lavando minha alma, molhando meus cabelos que caem como um manto negro e pesado em minhas costas.
 Elas choram enquanto meu ser é renovado.
 O céu está claro, as pessoas passam correndo para tentar se esconder, mas eu contínuo em meu balanço.
 Para cima.
 Para baixo.
 O vento está mais gelado, cortando-me como facas, mas eu contínuo. Isso não me machuca, apenas me faz feliz.
 Olho para o céu, a chuva caindo enquanto as nuvens ainda se abraçam, da pra ver que se amam. Se está partindo, vai deixar saudade. Se está chegando, está matando a saudade.
 E elas choram.
 Enquanto eu sorrio.
 Me sinto leve. Finalmente livre, a chuva marca o fim e o começo de uma nova era.

domingo, 25 de outubro de 2015

Pra você.

 Desamarrei o roupão e deixei que o tecido macio escorregasse em meus ombros, acariciando minha pele nua por baixo.
 Respirei fundo olhando ao redor, duas horas da manhã e eu sinto sua falta, sinto como nunca senti. Sinto sua presença, parado atrás de mim, suas mãos descem em meus braços e brincam com meus dedos.
 Me recuso a abrir os olhos, me recuso olhar meu quarto e ver que você não está aqui, que você nunca esteve aqui.
 São duas da manhã e eu estou acordada, parada no meio do meu quarto, o roupão em semi-círculo no chão e uma ilusão sua atrás de mim. Estou nua, em todos os sentidos.
 Aos poucos deixei cair esses muros sabendo que você não se atreveria a pula-lo. Aos poucos abaixei a muralha, tijolo por tijolo sabendo que você estaria ocupado demais para notar a passagem.
 Estou parada nua. Essa sou eu. Isso é tudo.
 Cada cicatriz a mostra.
 Essa sou eu, despida de barreiras. Lhe mostrando tudo que sou.
 Cada sentimento e pensamento que posso ter as duas da manhã. E todos eles gritam a saudade de ti.
 Respiro fundo e deixo a ilusão de você conduzir a dança dessa música que toca persistente em minha mente desde que te conheci.
 Você pega minha cintura e nós rodamos pelo quarto como se estivéssemos em um grande salão, minha cabeça na curva de seu pescoço, e seu perfume em todo o ambiente.
 Apesar de não saber dançar você me conduz e eu simplesmente flutuo. Estamos sincronizados até seu imaginário coração bate no mesmo ritmo do meu iludido coração.
 Dançamos como ninguém, a música parece durar uma eternidade, e quando chega ao fim seus lábios encontram os meus. Eu sorrio enquanto vejo a ilusão de você sumir, nossas mãos no clássico clichê onde estão perto mas não se encontram.
 Deixo as lágrimas caírem enquanto a chuva aumenta.
 Ainda são duas da manhã quando abro os olhos e pego o roupão no chão, penduro-o no cabide, seco as lágrimas e ascendo um incenso para tirar seu perfume do meu quarto, do meu ser. Fecho os olhos e faço um pedido.
 "Que a chuva te leve embora."

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Uma chama acesa.


Sei que não irei mais te ver.
 Nossos caminhos não irão mais se encontrar.
 Talvez eu te veja, um vislumbre de seu ser  atravessando a rua. Talvez eu esbarre em ti ao ficar distraída com uma loja, ou um cachorro.
 Nossos corpos podem se encontrar, mas nossas almas estão fadadas a esse mesmo momento, paradas no passado. Estagnadas ao nosso primeiro e único momento.
 Sei que não irei mais te ver, assim como sei que você jamais irá me ver.
 Sou apenas um rosto no meio de todos que você viu, sou um fantasma que te da calafrios.
 Por mais que eu lute e tente te encontrar, por mais que eu mantenha minhas esperanças altas, sei que aquele foi nosso adeus.
 Ainda levo comigo a carta que te escrevi, presa nas páginas de uma nova história do livro que estou lendo, para não se perder na bagunça da minha bolsa.
 Carrego comigo a carta dizendo o que sinto, dizendo o que espero e não espero nada além de que você seja feliz. Carrego comigo pois ainda espero te entregar, pois ela mantém uma pequena chama acesa em meu peito.
 Mesmo sabendo que não iremos mais nos ver.
 Mesmo sabendo que não irão me ligar, deixo meu telefone pedindo por uma informação.
 Mesmo sabendo que sua vida está feita, sonho com um futuro nosso.
 Mesmo sabendo que você não lembra de mim, ainda peço aos céus que me coloque em seu sonho.
 Mesmo sabendo que não há esperança, ela continua em mim, um pequeno fio prata quase invisível, uma chama pequena insistindo em brilhar mesmo que não clareie o cômodo.
 E assim sigo.
 Nossos caminhos não irão se cruzar, aquele foi nosso adeus.
 Sei disso.
 Sei que não iremos mais nos ver.
 Mas mantenho a carta sempre pronta, me mantenho sempre alerta.
 Mesmo que seja apenas por um vislumbre imaginário de seu sorriso.

domingo, 18 de outubro de 2015

Texto #05 (Daqueles infinitos sentimentos)

  Eu me pergunto o que você faz, se nesse momento você está em sua cama dormindo ao lado de alguém, ou se você está em algum bar tomando aquele gole extra da coragem que precisa para chegar na garota de vestido colado olhando para você enquanto brinca com o cabelo.
 Me pergunto se hoje eu sou um fantasma que as vezes aparece em seu sonho ou aquele arrepio no meio da rua que você não sabe o que é, ou se eu sou mais um rosto que passou em sua vida.
 Será que você procura por mim assim como eu procuro por você? Você imagina as possibilidades se eu tivesse ficado ali mais um dia, uma semana, mais um ano? Você guarda suas lembranças de mim como eu guardo as suas?
 Lembra como eu ficava vermelha toda vez que você tocava minha mão, como eu costumava brincar com meu medalhão, abrindo-o e fechando toda vez que ficava ansiosa? Será que você lembra  do beijo que nunca aconteceu, mas que seria tão estranhamente reconfortante?
 Me pergunto se um dia nossos olhos irão se encontrar novamente, talvez no meio da rua enquanto eu estiver saindo da livraria e você entrando, então eu darei aquele sorriso tímido e meus olhos irão brilhar, eu ficarei gelada e meu coração acelerado, mas você iria saber quem eu sou e iria parar para conversar ou seguirá seu caminho?
 Será que iremos nos encontrar em uma escada rolante novamente?
 Me pergunto por onde você anda, e se você se pergunta sobre onde eu ando.
 Eu me pergunto o que você está fazendo agora, se você está virando de lado na cama enquanto mergulha em um sonho. Me pergunto se nesse momento você está olhando em meus olhos me puxando para perto de si, se estamos em uma praia ou se você me procurou em casa. Se você está me puxando para um beijo ou para sussurrar que sentiu minha falta.
 Eu sempre lembrarei de nosso beijo e como suas mãos me seguravam como se eu pudesse escapar pelos seus dedos, como se a qualquer momento pudéssemos acordar.
E eu me pergunto se em algum momento você desejou acordar.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Texto #04 (Do infinito que eu gostaria de dizer)


As vezes gostaria de ser sincera, ter pelo menos um dia de coragem insana.
Eu iria te falar coisas que eu me proíbo até de pensar com medo que de alguma forma, a quilômetros de distância você consiga ouvir em minha mente, ler em minha expressão.
Te diria que me apaixonei pelo teu ser desde o primeiro Oi, aquele tímido mesmo. Que seu toque fez eu me arrepiar de uma forma que eu jamais imaginaria. 
Eu olharia em seus olhos e diria que seu sorriso é lindo e sua risada ecoa em meu quarto, assim como seu perfume está presente até mesmo nas minhas roupas que você nunca tocou. 
Diria que toda vez que nego estar apaixonada, imagino se alguém percebe a mentira, se meu nariz cresce, se algo me denúncia.
Se eu tivesse esse dia de coragem insana correria até você e diria que em todo boa noite que escrevo meu cérebro fala eu te amo.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Texto #03 (Do infinito de telvez)

Ainda  não me acostumei a ter você andando pela casa, tão confortável e a vontade, tão desnudo do medo como se não tivesse acabado de chegar.
 Não me acostumei com seus pedidos insistentes de madrugada quando eu o deixo dormir no sofá, assim como não me acostumei a ter você em minha cama.
Confesso que nunca esperei um ser tão carente de mim como você, durante as tardes nubladas deita ao meu lado e permanece por horas pedindo carinho, pedindo por amor.
E eu ainda não me acostumei a te chamar de meu.
Talvez eu nunca me acostume, talvez eu sempre me pergunte se é um sonho, você aqui comigo.
Talvez eu nunca me acostume com nossas brigas pelo maior espaço na cama, ou para ver quem chega primeiro a cozinha.
Talvez eu nunca me acostume com você.