sexta-feira, 24 de julho de 2015

Aqueles ruídos.

Não aguento mais os ruídos, não sei se são da obra ao lado ou se são da minha mente perturbada.
 Se for da obra, chamo a polícia.
 Se for da minha mente, chamo uma amiga.
 "Eu tava bem, eu tava feliz. Gostava daquela sensação." digo a ela tentando acabar os ruídos. "Mas então como um enorme tapa na cara o universo disse 'olha aqui tudo que você esqueceu' e eu cai segurando o choro"
Ela me conforta, me faz rir do assunto, me faz ver o lado positivo da situação e o ruído passa, menos o da obra ao lado, será que por serem velhos não percebem quanto barulho fazem? Mas os meus haviam parado.
 Eu estava bem de novo, eu ria alto e me sentia leve. Achei que seria uma boa deitar na cama e terminar o livro que havia começado.
A chuva batia no teto, meu gato respirava pesado e a cachorra roncava do outro lado. Era o melhor som e a melhor companhia para a leitura.
 Mas uma virada de página e uma brisa entrando pela janela do quarto fez aquele perfume subir, tomando conta de meu ser e no segundo que me fez sorrir os ruídos voltaram, os vizinhos acordaram da soneca da tarde e estava tudo tumultuado novamente.
 Página por página li o livro. Tive que reler alguns trechos pois os ruídos eram altos de mais.
 Mas ao final do dia, baixei o livro e desejei ser forte como a Anna.
 Senti aquele perfume que fazia os ruídos voltarem e esperei o sorriso vir.
Os vizinhos continuavam, mas os ruídos por hora haviam se calado.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

"Hoje eu estava saindo do mercado com a minha mãe, e vi essa garota, ela era bonita não do tipo que você lembre o resto do dia de cada detalhe dela, na verdade, eu não consigo lembrar nem da cor do cabelo dela. Eu sei que ela era muito branca, mais do que eu, me arrisco a dizer, e que estava com um vestido leve e preto. Tinha uma bolsa transpassada e uma sacola na outra mão, afinal, estávamos no mercado.
O que eu mais me lembro era da beleza que irradiava dela, mesmo sem que ela soubesse, era uma mistura de luz branca, com tons de terra e azul. Era simplesmente pacífico, lindo.
Mas outras pessoas vão lembrar dela como a garota gorda vestida de preto.
Embora, eu também vou lembrar dela por conta de seu sorriso forçado, e deu seu braço, aquele segurando a sacola. No momento em que eu o vi, me senti como se algo tivesse me empurrado, como se eu fosse andar e de alguma forma eu sentisse a gravidade me puxando, ou como se eu tivesse batido em uma parede de vidro.
 As cicatrizes eram vermelhas, recentes, e cobriam um palmo de seu antebraço, assim como o meu.
 Mas as minhas agora estão se tornando leves cicatrizes que não passam de uma lembrança de como essa primeira semana do ano tem sido simplesmente leve, lembranças de que já tiveram momentos piores.
Não sei os motivos dela, talvez uma briga em casa, problema de aceitação ou as crianças implicam com o tamanho dela, afinal, ela também era muito alta. Mas eu não posso dizer nada, qualquer um é muito alto pra mim.
Ou pode ser como eu ouvi na minha cabeça, como se ela tivesse percebido que eu vi. Como se falasse para mim como fala para todas as pessoas que encaram e perguntam: Foi o gato.
 Ah, eu já usei essa desculpa, mas eu não tenho gatos.
Quando eu ouvi aquela voz em minha cabeça, botando a culpa no pobre bichano, eu senti vontade de abraça-lá, dizer está tudo bem, veja só, eu também tenho, na perna também, e no peito. Está tudo bem.
 Eu tive vontade de falar que nós precisamos aceitar que isso é parte de nós, mas que não podemos ficar tristes com isso a vida toda. Temos que aprender.
Mas eu não o fiz, não o fiz pois ainda não cheguei a tal nivel.
Não o fiz, pois ainda tenho vergonha de mostrar ao mundo o que eu fiz comigo mesma, como a minha dor emocional pode virar algo tão físico, como minhas dores de cabeça não é só algo que eu já tinha, mas algo que eu me dei também. Não aceitei levar a culpa por completo, essa cicatriz fui eu, mas outras foi eu sendo estabanada e batendo na chave, na porta, oops, me cortei lavando a louça.
Não o fiz, com medo do que eu possa parecer, eu sei a minha dor, mas ela pode não ser real para outra pessoa, assim como a dela não podia ser real para mim, e ao chegarmos em casa, cansadas da besteira alheia, isso transformaria em outra fina cicatriz vermelha parte das que já temos, prontas a contar sua história.
Não o fiz. Por covardia, medo de que se eu contar, essa minha dor se torne menos real até pra mim, e eu simplesmente me sinta vazia!"

O texto foi escrito no dia 8 de Janeiro de 2015, e nunca me senti tão pronta para publica-lo como agora, nunca me senti tão bem comigo mesma para expor o que quem convive comigo, já sabe tem muito tempo.  Minhas cicatrizes hoje em dia não passam de meio tom mais escuro que a minha pele, (digamos que um tom a cima do meu pálido) mas que se você reparar, elas estão ali, contando suas histórias, e hoje mais do que nunca, batendo palmas e dizendo  o quanto eu venci.
 Pois me sinto vitoriosa.

sexta-feira, 17 de julho de 2015

Texto #01. (De um infinito de sentimentos)

O edredom está quente, o café em cima da mesinha de cabeceira esfriando, o gato miando pedindo carinho e eu me aninho em seu peito, subindo e descendo levemente.
 No notebook o Netflix passa mais um episódio de uma série, e eu rio baixo para não acorda-lo, o gato pula em meu colo e ronrona enquanto passa a cabeça em minha mão, fazendo carinho em si mesmo.
 Dou uma risada um pouco mais alta e ele se meche, querendo acordar, mas ainda dormindo passa o braço em minha cintura e beija meu cabelo, sussurro para que volte a dormir, e aos poucos caio no sono junto com ele.
 Aos poucos, o peito vai parando de subir e descer, minha cabeça se estabiliza em meu travesseiro, e como um passe de mágica, ele não está mais lá, voltou ao turbulento do meu subconsciente e ao vazio e frio de meu coração.
Ele nunca esteve ali.
Ele nunca chegou a conhecer meu gato, meu quarto.
Mas eu ainda sinto seu abraço. Aquele dado tantos anos atrás.
Eu ainda escuto sua voz me dando boa tarde, boa noite e e eu desejando que fosse bom dia.
Eu ainda sinto sua presença, mesmo sabendo que te perdi no momento em que me apaixonei

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Você é a brisa.

Observo as ondas se quebrarem, sentada em meus chinelos eu espero um sinal, espero que o acaso te coloque em meu caminho novamente, será que você vem a praia quando precisa de paz, ou como no meu caso de inspiração?
Você é uma brisa, aquela brisa delicada que beija meu rosto no exato momento em que eu penso em ti, aquela brisa que faz você fechar os olhos e apenas sorrir, é a brisa que toca meus lábios e meu peito enquanto eu suspiro.
  Meu café ainda está quente e enquanto deixo ele me aquecer me pergunto se você prefere café ou chá, eu poderia te fazer chá e eu até faria café a mais para você, se quisesse. Te acordaria todo dia com uma caneca fumegante combinando com a minha, e você assistiria um pouco de televisão enquanto eu lia mais um de meus romances, e você faria alguma piada sobre ele, e eu iria fingir estar brava e você me abraçaria.
 Mas você é uma brisa, você é o meu boneco de neve. Não posso te abraçar. Você não pode me abraçar.
 Mas a brisa toca meu rosto enquanto observo o mar e as ondas quebrando e sinto como se você estivesse aqui, abraçando-me. O que faríamos se estivéssemos em casa? Iriamos assistir ao meu filme preferido pela 15 vez ou iriamos assistir ao seu filme preferido, aliás qual é o seu filme preferido?
Suspiro, sentindo saudade de ti, sentindo saudade do que poderíamos ter tido, do que poderíamos ter sido.
Mas você é a brisa que toca meu rosto enquanto caminho de volta para casa, é o boneco de neve que nunca fiz, é o suspiro reprimido em meu peito.
 É a brisa que leva esse pensamento para o horizonte.