sexta-feira, 12 de junho de 2015

Unsaid Things


 "Eu só quero que saiba, que mesmo que mal dizendo um simples olá um para o outro, eu amo você. Seu jeito de sentar e ler o jornal, e quando termina de ler o enrola e joga para seu cachorro pegar mesmo que ele apenas levante uma orelha e olhe para você como quem diz: 'Você jogou, você pega.' 
 Amo sua voz quando você está cantando afinal nossas paredes são tão finas que eu consigo ouvir você no chuveiro cantando músicas que fariam seus amigos rirem de você.
 Só queria que soubesse isso, que desde que me mudei para a casa ao lado, você é o amor escondido em minhas raízes e cobertores."
 Ao final da carta escrita com letras perfeitas onde eu podia ver que ela demorou horas sentada na escrivaninha do quarto dela apenas para deixa-la assim, tinha escrito com um coração ao final "Com amor, da sua vizinha ao lado." Quanto tempo eu havia recebido essa carta? Quanto tempo havia se passado desde que ela mudara para a casa ao lado e depois mudara-se para longe?
 Fazia tanto tempo que eu tinha essa carta guardada em meio ao meu armário dentro de cadernos esquecidos que eu já nem me lembro mais do rosto da garota, lembro-me apenas que ela tinha longas e finas pernas, tão lindas talvez as mais bonitas que eu já tinha visto. 
 Lembro de quando ela tomava sol no jardim com seu gato ao lado, suas pernas brancas refletiam o sol e elas pareciam tão lisas e macias, tão suaves. Mas seu rosto, eu não me lembro de seu rosto, por mais que eu me concentre seu rosto está sempre coberto pelos cabelos voando, ou um enorme óculos de sol e o resto coberto pelos vários livros que ela carregava com ela.
 Em um ato de desespero, pois por algum motivo meu coração apertava no peito liguei para minha mãe e no terceiro toque ela atendeu.
-Mãe, qual era o nome da garota que morava ao lado?
-Como assim meu filho? A filha dos Collins?
-Sim, ela mesma mãe.
-Ah a pequena Joanna, Joanna Collins. Aquele nome fez meu coração parar ao menos um segundo. -Soube que ela vem esse fim de semana visitar os pais. Minha mãe continuou surpreendendo-me. -A mãe dela ainda vem aqui para conversar e ela me contou pedindo a receita do meu bolo, sabe aquele bolo que eu fiz quando eles mudaram? 
-Lembro sim mãe, é um dos meus preferidos.
-E por qual motivo você quer saber isso Tom?
-Não sei mãe. Suspirei.-Não sei.
 Desliguei o telefone e decidindo o que faria com a noticia de que ela estaria na cidade em que eu cresci. 
 Tomei um café, comprei um pedaço de bolo, comi o bolo com mais café sentei no sofá e assisti um filme, depois outro, e um episódio de uma série. Mas o nome Joanna Collins não saia da minha cabeça, nem suas pernas ou seu rosto turvo que morava em minhas lembranças.
Eu precisava dar um rosto ao nome, precisava saber como ela estava, quem ela era agora.
Peguei meu computador no quarto e a procurei no Facebook, apareceram três opções, mas só uma fez meu coração palpitar e só uma com a mesma cidade natal que a minha, apesar dela não ter de fato nascido ali.
Cliquei em sua página e lá estava a foto dela, sorrindo para mim com belos lábios finos e olhos sedutores, o cabelo estava comprido e preto, e ela era ainda mais bonita que suas pernas.
 Passei foto por foto até me deparar com um forte homem, ajoelhado com um anel em mãos e os olhos de Joanna estavam marejados.
 Merda, minha Joanna estava noiva.
 Lembro do dia em que Joanna mudou-se, ela era miúda tínhamos quinze anos na época e minha mãe obrigou-me a levar bolo para a nova família de vizinhos, a senhora Collins gritou da cozinha que eu entrasse, e na sala ela estava sentada com seu gato no colo, o rosto vermelho e inchado de chorar na despedida de suas amigas, e lembro que ela já era linda, mesmo com o rosto inchado.
                                                             *
Quando me dei por mim estava dirigindo pela tão familiar estrada, voltando para minha antiga casa.
 E eu sabia que Joanna estaria lá. 
 Assim como seu marido/noivo.
Onde eu estou com a cabeça? Aposto que ela nem ao menos irá lembrar quem sou. 'Só há um jeito de saber' dizia uma vozinha em meu interior.
Mas e o marido? Ele malha, e é bem maior que eu. E se ele implicar comigo o que eu faço, corro?
Agora não tinha mais volta, em menos de cinco minutos estarei parando em frente de casa. Dois minutos. Apenas uma esquina.
Parei o carro no semáforo e fechei os olhos, como se queimasse dentro de mim uma cena. A ultima cena. Ela estava sentada em seu jardim com alguns papeis ao lado e várias canetas, novamente seu rosto estava vermelho e inchado, mas ela estava linda a luz da lua. Sentei-me ao seu lado e perguntei o que ela estava fazendo, ela arrumou os papéis como quem escondia algo e deu de ombros enquanto falava.
-Apenas me despedindo. Esperei para que ela continuasse. -Estou indo para a faculdade logo pela manhã.
-Faculdade já? Uau.
-Sim, começa mês que vem mas eu vou para outro estado então eu preciso arrumar minha nova casa, me familiarizar com tudo sabe como é não? 
-E, você vai se despedir de mim? Apontei para as cartas que agora estavam viradas para baixo em seu colo e ela sorriu abaixando levemente a cabeça.
 Lembro que um fio de cabelo caiu sobre os olhos e eu o coloquei atrás da orelha, deixando minha mão ali por um tempo maior que o normal. Nossos olhos se cruzaram e eu sabia que eu iria beija-la, sabia que eu queria e que ela queria.
Mas seu pai chamou da sala e ela entrou. 
Ao abrir os olhos o sinal ficou verde e eu virei a esquina para a minha antiga rua, passando pela casa dos Matthews, dos Judds e chegando a dos Collins e a de minha mãe. Um carro parou ao mesmo tempo que eu. Joanna Collins havia acabado de chegar.
Desliguei o carro e esperei que ela saísse, e quando sua porta abriu eu sai do meu carro também, ela estava linda, com um vestido preto e as pernas de fora, seus óculos ocupavam metade de seu rosto, acompanhei-a até a porta.
-Olá. Sorri para ela.
-Oi. Sua voz era suave e tímida.
-Não acho que você lembre de mim.
-Tom. Joanna sorriu abraçando-me, só então percebi o volume de sua barriga.-Quanto tempo, meu deus.
-Acho que entre sete anos talvez.
-Quando eu fui para a faculdade. Ela disse com pesar.
-Sim, você nem ao menos se despediu. Brinquei lembrando das cartas.
-Ah. Seus olhos pareceram distantes antes de ela voltar a sorri. -Tem um tempo? Gostaria de conversar.
-Tenho sim. Sorri. -Só tenho que ir avisar minha mãe que cheguei. 
-E eu a minha, pode vir aqui em uma hora?

Foi a hora mais longa do meu dia, mas lá estava eu novamente parado na porta da vizinha. 
-Entra, ela esta no quarto dela. Senhora Collins falou e de repente me sinto com quinze anos novamente.
 Subo as escadas a porta semi aberta e lá está sentada em sua cama, uma caixa em seu colo e um sorriso no rosto.
-Como vai a sua vida? Ela perguntou assim que eu entrei no quarto.
-Boa. Sorri sentando na cadeira ao lado da cama. -Escrevo musicas para algumas bandas, moro em um apartamento bom e estou pensando em pegar um cachorro.
-Mamãe me contou do Sebastião. Sinto muito. 
-Obrigado, ele era um ótimo cachorro. E a sua vida, soube que você está casada.
-Ah, sim. Ela riu sem graça. -Na verdade esse e o motivo de eu vir para cá. 
-O que houve?
-Eu e ele estamos nos separando, nem chegamos a casar e desde que ele descobriu do bebê ele mudou e eu resolvi cortar o mal pela raiz.
-Sinto muito. Quantos meses?
-Quatro e meio.
-Parabéns. Sorri sincero. -Vai parecer loucura mas eu estava pensando em você essa semana. Seu rosto ficou surpreso e eu continuei. -Achei uma carta que você escreveu.
-Ah! Mas acho que não cheguei a te mandar carta. 
-Para ser sincero, eu só a li agora, e me fez pensar na ultima vez que nos vimos.
-Ah, disso eu lembro. Ela sorriu olhando para baixo como no ultimo dia.
-Não sabia se você ainda lembrava de mim.
-Eu passei alguns anos muito importantes da minha vida escrevendo cartas para você. Ela sorriu. -Essa foi a ultima.
 Ela entregou-me um envelope fechado e eu o abri, datava de sete anos atras.
 "Querido Tom" ela escreveu.
"Como começar essa carta sem que você ache que eu esteja louca? Eu lhe escrevi tantas outras sem me importar com isso, talvez seja porque essa eu pretendo que você leia. 
 Havia escrito uma antes dessa mas ai você apareceu e sentou ao meu lado, e em tão pouco tempo tanta coisa aconteceu que eu precisava escrever outra. Hoje eu olhei no fundo dos teus olhos e vi nosso beijo que não aconteceu, vi o tempo passar e vi você ao meu lado. Nós dois voltando no mesmo carro para visitar nossas antigas casas vizinhas e relembrando coisas de nossa adolescência.
Mas eu me afastei e amanhã eu irei embora. O beijo que eu tanto quis não aconteceu. E durante todo esses anos eu não sabia se você sentia o mesmo que eu sentia, mas hoje eu pude ver uma pontada em seu olhar.
Não sei quando iremos nos encontrar, ou se iremos nos encontrar novamente. Mas aqui fica uma promessa, tanto para mim, quanto para você: da próxima vez, eu irie lhe beijar. Nem que mesmo depois disso nunca mais iremos nos falar novamente.
 Com amor, Joanna Collins, sua vizinha que agora, mora longe."
Sorri ao final da carta, e Joanna estava parada com o rosto vermelho.
-Eu era tao inocente, fazendo tais promessas, não pensava em como a vida mudaria e...
-De certa forma a carta que eu li essa semana me fez perceber que eu tenho muita coisa para falar. Comecei organizando meus pensamentos. -Fiquei de certa forma feliz com o seu não mais casamento, e eu sabia que você viria hoje e não podia ficar mais um dia imaginando se você iria lembrar de mim e eu queria que você soubesse que eu esperava que você lembrasse e...
Joanna diminuiu o espaço entre nos puxando a cadeira onde eu estava e cumprindo sua promessa de tantos anos atras, deixando-me ainda com tantas coisas não ditas e varias a serem escritas.


Ps: Essa foi uma pequena historia baseada na musica Unsaid Things do McFly (que todos deveriam ouvir.) mas foi inteiramente escrita por mim, Fernanda Garcia.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Lazzy Days.


 Existem os dias preguiçosos, onde apenas jogo o roupão por cima do pijama levanto o cabelo em um coque e preparo um chá, café, leite.
 Na janela a chuva cai fina atrapalhando meus planos, ‘Eu tinha que ir no banco, na papelaria, comprar comida’ mas tudo o que você faz é ficar sentada na cama olhando gota por gota cair, escurecendo o dia, lavando a rua.
 ‘Como é que dizia aquela música? Now the rain is just washing you out of my hair and out of my mind’ 
 Um filme qualquer passa na televisão e uma música toca em minha mente, tanta coisa pra fazer, tanta coisa...
 O vento sopra e traz aquele cheiro de chuva para dentro de casa, algumas gotas da gélida chuva cai em minha caneca e a fumaça sufoca minha garganta, fecho os olhos e lembro de dias como esses, dias em que eu sai com aquele cara pelo qual meu coração nunca parou de bater e meus suspiros nunca acabaram, volto para o dia onde tudo aconteceu, seus lábios tocaram os meus com a chuva banhando-nos.
 Abro os olhos sorrindo, sei que isso nunca aconteceu, ele foi para seu caminho e eu para o meu, fugi antes de tudo começar, fugi antes mesmo de um olá.
 Foi o certo. 
 Mas meu peito parece não entender. 
 Minha mente parece não querer esquecer as coisas que nunca fizemos.
 Concentro-me em meu chá, café, leite seja lá o que for, na fumaça saindo da xícara e se perdendo na imensidão do mundo deixo a chuva levar esses pensamentos, afinal tenho muita coisa pra fazer, ir no banco, na papelaria, comprar comida, esquecer o passado. 
 ‘Meu deus a roupa no varal.’
  Agora já está molhada, termino meu chá, café, leite. A chuva parou.
  O dia começou, vou no banco, na papelaria, comprar comida, antes que pudesse ver, estou tão ocupada que não tenho tempo de pensar no que nunca se passou.